Tenho um primo que está muito doente. Daqui a pouquinho ele vai ser operado. É câncer. Galopante. Fui ver ele no sábado passado e ele está tão tranqüilo, tão sereno. Existem pessoas especiais.
Eu nunca pensei que a serenidade pudesse ser brutal, mas pode. A serenidade dele é um soco no estômago de coisas tão bobas quanto as minhas preocupações.
E essa noite eu perdi o sono, pensando no meu primo e em outras bobagens. Por que deixamos as bobagens acompanhar as coisas importantes ? Eu queria ter pensado só nele, nas coisas legais que fizemos juntos e nos momentos bons que tivemos. Eu pensava na cirurgia também, na vida sendo decidida ali: uma mesa, médicos e a vida. Talvez indo embora. Pensei também no trabalho, ai que raiva !
Com certeza, o meu querido Rogério foi a pessoa com quem mais fiz planos. E não realizei.
Tantas viagens eu imaginei, tantos momentos eu quis dividir, tantas coisas eu quis contar prá ele ... mas sempre tinha o trabalho, os filhos, o marido e até meus pais. Eu sempre me dedicando tanto a tantas coisas e deixando de lado aqueles meus desejos tão sinceros, tão importantes ... e agora,talvez, ele vá embora.
Mas ele viveu. Ah, ele fez as coisas que quis. 36 anos. Somente 36 anos e tantas coisas realizadas. E tanta serenidade. Nunca mais vou deixar meus desejos para um futuro distante. Talvez a realização de nossos desejos nos traga a serenidade.
Desculpe se não são notícias de alegria. A vida não é só alegrias. Eu estou aprendendo esse capítulo só agora e, no início, a lição é mais difícil.
Um beijo muito grande, um abraço muito forte.
Margot
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